sexta-feira, 15 de abril de 2011
Cotidiano (lado A)

Cotidiano (lado A)
As semanas passam lentamente voando. Os dias fogem em disparada insana, mas nunca deixam de fazê-lo, sem esperar em demasia, pelos dias que nunca vêm. O desatino dessa “coisa” toda dividida, quantificável e numérica é tão grande, que parece divertir-se à custa de seres menos exatos e prendê-los em suas horas, minutos e segundos. Parece não considerar nossos anseios, brinca com nossa esperança e paciência. Tem vezes, finge ser amigo. Mas não se engane! Ele, a ninguém tem por íntimo. O Tempo continua sendo um mistério para todos...
Incrível! Os passos desse rapaz nunca foram tantos e tão depressa! Confirma isso dona Ana, mãe de um guri calmo e de passadas arrastadas. Talvez quem poderá dizer melhor é a Bruna, irmã do tal vagaroso. Ou mesmo Isabela, sua encantadora noiva (por quem ele com certeza perderia as pernas correndo se necessário). A Gabi, bem... ela não poderia dizer muita coisa, pois, mesmo se pudesse, o passo duas vezes mais lento do seu irmão, ainda assim seriam mais do que suas perninhas poderiam acompanhar. E o pai então? A hereditariedade genética explica! Esse arrasta-se tanto quanto o filho.
Às sete horas da manhã o celular desperta. “Ok! Só mais dez minutinhos...” Começa o dia. Ele levanta da cama quente. Se veste, escova os dentes. Prepara a mochila, carrega-a com mil sonhos. Calça o tênis e sai. Nem todos os dias são iguais, mas ultimamente, um peso enorme tem esmagado o seu humor logo cedo. Uma tonelada nas costas pela manhã. Lá vai ele arrastar-se outra vez. Mas é preciso correr! O dia começou! Acorda pra vida! E ele realmente corre. Mas algo parece ficar para trás, perdido em algum buraco negro da existência. A alegria de viver não o acompanha, é sugada por alguma força estranha que ele não sabe nomear. “Oh vida! Porque és tão severa? Logo com os mais fracos! Poderias ser o algoz dos fortes e destemidos. Eles agüentariam o teu jugo. Mas o pequenino... o que poderá fazer em tuas mãos, senão clamar aos céus? Ajuda-me Deus, fortalece-me!”
Sua oração diária, matinal, é quase um vômito! Tal qual na verdade. Sua alma expele essa densa e amarga sensação triste de suas entranhas. É repentino, involuntário, reação. É penoso. E é ainda mais, por não se tratar apenas de distância, saudade e noites mal dormidas. Solidão. Seus pés pisam ladrilhos úmidos, pedras molhadas, grama orvalhosa. Uma terra distante de seu berço. O dia é frio, a rua é fria, o sol não nasceu direito. Os carros voam. Alguns minutos depois ele encontra a moça da parada de ônibus. Sua alma estrangeira o mantém ilhado. Mas ele convive bem com os seus anônimos. Eles permanecem no anonimato. O "busão" pára no ponto. O motorista bigodudo, sem nome, pisa fundo, e sacode todo mundo lá dentro. O cobrador careca e simpático, também sem nome, cobra a passagem. “Puxa! Quanta gente sem nome aqui dentro!” A mulher negra e seu cabelo culturalmente bem distinto; o japinha sonolento que dorme com a cabeça "quicando" no vidro da janela do ônibus; o cara de expressão bem humorada (é jovem, deve ser um gozador, piadista, tem todo jeito); a moça casada de olhar misterioso (parece que esconde segredos), e tantos outros. Todos personagens de um mesmo roteiro: O Interbairros II.
No terminal há tantos anônimos, tantas histórias. Vidas correndo, se chocando, lotando ônibus. Sob aquele palco, todo dia, aquele vai e vem de pessoas. Fluxos de gente sendo engolidas por monstros de metal e despejadas em funis humanos. Mas ele continua ali, fazendo parte de todo esse enredo, esse drama diário. Por alguns minutos (dez aproximadamente) ele consegue parar e conjugar-se no particípio. Ali parado, sentado no banco do terminal, ele vê aquele movimento todo: “Que mundo é esse? Eu não fui programado para funcionar a essa velocidade. Vai ver é um defeito de fábrica, ou um defeito adquirido. A verdade é que não consigo acreditar nisso. Esse mundo é grande demais pra mim e meu coração não cabe nele. Esse ativismo todo me deixa louco! Pessoas gerundiando o tempo todo. Ninguém pára. Algo me diz que elas só correm, não vivem!”
Por vezes a vida se resume a lampejos. Um gozo inesperado, uma consolação sucinta no íntimo, uma esperança que floresce regada pela lembrança; um súbito sossego na alma, um ânimo novo. A paisagem bela que cai diante do olhar como uma dádiva divina e alimenta os olhos famintos de cor e contraste. O canto do pássaro que revoou da calçada naquele instante em que alguém passou por perto, contrapõe-se aos ruídos da urbanidade e preserva-nos um resquício de prazer aos ouvidos no meio de tanta poluição sonora. O sorriso e os olhinhos de uma criança, sentada ao colo da mãe, que encara o olhar do estranho com uma inocência e firmeza tão características e desprovidas de pudor que adulto nenhum seria capaz de igualar-se sem se sentir embaraçado. “Não há quem ouça o canto dos pássaros? E o esquilo? Naquela manhã fui o único espectador a flagrar a sua aventureira travessia no asfalto. E eu nem sabia que haviam esquilos por aqui...” A paisagem, o pássaro, o esquilo, o sorriso da criança... Elementos de uma vida marcada por contingências. O tempo prega peças (e às vezes arranca-nos aplausos), o cotidiano é uma odisséia e imprevistos, vez em quando, são boas notícias para uma alma calejada.
Lá vem o Montana. Os ônibus mudam de cor e de nome, mas sua aparência externa não o engana. Lá dentro ele sabe que irá encontrar mais anônimos e rostos codificados. E esse é apenas o prólogo do dia, ainda nem viramos a página. Ele desce do ônibus, desce a ladeira, desce o olhar. Para baixo até a lei gravitacional ajuda. Cai também a auto-estima (e essa nem precisa de gravidade). A mochila, um apêndice do corpo, continua nas costas, pesando sonhos e planos na sala de espera (além do material da faculdade e uma marmita para aquecer na hora do almoço). Trabalhar, trabalhar... Ele não pode se queixar. O trabalho é uma bênção! Graças a Deus! Mas mesmo assim, na hora do almoço, ele não deixa de plagiar o poeta: “... Todo dia eu só penso em poder parar / Meio dia eu só penso em dizer não / Depois penso na vida pra levar / E me calo com a boca de feijão...”
O tempo passa, o expediente termina. Agora, dezoito horas. É hora de partir. Tomar o rumo. Chega de trabalho por hoje. “Eu já passei meu cartão, cumpri meu horário!” O fim de tarde encerra um capítulo, mas os seus pés ainda não cessaram a caminhada. É hora de ser engolido novamente pela grande lagarta verde que o transporta até a faculdade. O dia não acabou e a história continua... Pois, como diria outro poeta: “o tempo não pára...”
Eu diria que este seria o lado “A” de um cotidiano que se expressa amargamente. Amargo seria um adjetivo exagerado sob a maioria dos pontos de vista, mas não para o nosso personagem taciturno. Só Deus sabe o que ele carrega no peito. E, aliás, acredito que ele já falou até demais. Ele se vê agora demasiadamente melancólico e relutante para dar qualquer pista que seja, sobre como termina o seu dia, e a que horas repousam os seus pés após a jornada. Talvez o dia dele termine com uma lágrima vertida e uma prece sussurrada. Não sabemos. Mas o fato é que, nem todo dia chove nem todo dia é frio, nem todo dia é inverno. E com certeza há um lado “B”, com um “B” verdadeiramente maiúsculo. Um lado “B” que realmente faça jus aos dias bons. Mas quem sabe eles estão como o verão, há alguns meses daqui. Quem pode saber? O tempo de cada coisa, só o tempo irá revelar. Enquanto isso, Diego, o filho de dona Ana, continua esperando. Esperando o despontar da Alvorada.
“Escrito em um período remoto sob a penumbra medieval de alguma masmorra...”
Autor: Thiago Mattos
sexta-feira, 8 de abril de 2011
Conversas no coletivo

O que dizer dos acontecimentos vivenciados no coletivo? Ouve-se o barulho do motor, pessoas passam para lá e para cá, alguém lê uma revista, outros se utilizam da tecnologia do celular para a comunicação – um apito é ouvido. O coletivo faz jus ao nome, pois muita gente começa a entrar e lotar o veículo, já não existem mais lugares para se sentar.
Mas, há lago diferente. Vejo uma mulher, com ela dois pequeninos, um deles ainda nos seus braços, num sono profundo, aproveitando o colinho gostoso. O outro se sentou ao lado da sua mãe – o que aconteceu? Uma conversa interminável, intermináveis questionamentos, uma alegria infantil contagiante, olhar penetrante, refulgente. Quem diria, que em meio a rostos tão diferentes, desconhecidos, em meio à tecnologia e seus avanços, vê-se a simplicidade dum pequenino. O olhar apaixonante de sua mãe, o amor estampado em sua pupila fascinante! O amor salta aos olhos.
O olhar do pequenino reflete o amor exalado pela mãe. Obrigado Senhor por perceber na simplicidade a pureza e profundidade de amar.
Autor: Bruno Leonardi
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